A rebelião da gente comum
Volta e meia sou interpelado acerca daquelas frases-bomba de Bolsonaro que comumente se repetem na intimidade dos bares e lares — e as quais se aprendeu a suprimir fora deles, e não raro, combatê-las como se fossem anátemas.
Em outras palavras, estou dia a dia convencido que a mais “polêmica” das pérolas de Bolsonaro — escolha uma no youtube... — é apenas uma forma de verdade que o homem simples, na praticidade da vida, corresponde com seu assentimento e que o esclarecido (imbecilizado), por sua vez, renuncia publicamente. O motivo dessa renúncia: uma loucura coletiva.
Tempos atrás li a obra do psiquiatra polonês Andrew Lobaczewski, “Ponerologia: psicopatas no poder”. Ponerologia quer dizer “estudo do mal”. E o rastro que o autor persegue é: por que psicopatas chegam ao poder? Como, gente como Mao, Mussolini ou Hitler, operaram, a despeito da realidade, um processo de “bloqueio reverso” coletivo e profundo, cuja implicação dentre outras, era fazer com que as pessoas decidissem contra suas convicções morais mais arraigadas e, repito, apesar da realidade.
O psicopata, segundo o Autor, só chegaria ao poder se conseguisse mobilizar a “gestão intelectual” das emoções sociais a seu favor. Ou melhor, ele só teria domínio sobre as massas se pudesse dar clareza conceitual dessa moralidade, sem que esta, porém, tivesse efeito prático na vida das pessoas. Em muitos casos, atuando contra o sentimento; contra os afetos.
Vamos aos exemplos. Bolsonaro é acusado de machismo e misoginia. As duas últimas palavras são, além de palavras, conceitos intelectuais com sentido prático. Ou seja, para que haja machismo deve haver um conteúdo afetivo mobilizado que justificaria a aplicação desse conceito.
Lembre-se: conceitos, no limite, são formalizações secundárias do corpo a corpo da vida; das trocas reais. Lembre-se, também, que descobertas conceituais em matéria moral são dividendos do chão da vida, práticos, e não tema de teóricos, pois estes vêm depois.
Agora, note como o candidato Ciro Gomes, na prática, tem lidado com o conteúdo real desses conceitos acima citados (machismo e misoginia) e compare com o que Bolsonaro, apesar do que NÃO fez ou faz nesse âmbito, tem assumido no debate público, isto é, PRÉ-CONCEITUALMENTE. Entendeu quem sofre o PRÉ-conceito?
O mesmo Ciro Gomes ainda andou se referindo a um vereador paulista como “capitãozinho-do-mato”. E é Bolsonaro, curiosamente, que quase virou réu no STF por racismo, cujo contexto, como se provou por A mais B não tinha qualquer cabimento para tal.
Para mudar de personagem, lembraria ainda a insistência quase paranóica do jornalismo político quanto aos conhecimentos de Bolsonaro sobre economia quando, sem alarde, um semianalfabeto (Lula) seguido de Dilma (como sabemos com sérias dificuldades de expressão) haviam conduzido o país sem restrições nesse ponto — conforme esse mesmo jornalismo.
O que o dr. Lobaczewski nos faz ver é que a imbecilização da sociedade faz com que odiemos o conceito correto amando os personagens errados, mas reais. Ou seja, ao gerir a emoção das pessoas o psicopata, que não sente compaixão mas sabe o que este conceito representa, por sugestão e manipulação acaba por inverter sentimento e conceito. Não por acaso, algumas mulheres são submetidas por homens (psicopatas) a relações doentias, mesmo absolutamente conscientes, do conceito que está por trás daquela conduta.
Por isso, para muitos “esclarecidos” ver Bolsonaro disparando seus “horrores” é uma forma manifesta de seu segredo: a convivência submissa com seus algozes na prática cotidiana e o desprezo ao conceito travestido num símbolo — exatamente, como Hitler travestiu aos judeus, enquanto símbolo. Para tais pessoas há até solidariedade com vilões reais, gente como Lula, e repulsa contra figuras como Bolsonaro.
Ontem, na Folha de SP, o colunista Celso Rocha de Barros disse que o voto em Bolsonaro seria o último voto dos eleitores brasileiros, considerando que os "bolsonaristas" iriam dar um golpe e instalar uma ditadura por aqui.
Agora, pergunto, quem tentou com toda energia fazer isso no Brasil ao longo dos últimos vinte anos, na cultura, nas leis e na mídia?
Em suma, ou a gente comum desse país dá um basta nessa loucura ou a loucura, em breve, será regra de conduta.
Gabriel Leal



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